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AS JÓIAS DO ABISMO

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FLORIANO MARTINS

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[ novo capítulo ]

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16. SELMA ENTRE NUVENS
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Despertei, a noite estendida por toda a cama. A meu lado, Eduardo no compasso sempre inquieto de seu sono. Sempre dormimos nus. Porém sua nudez era um mar revolto. A minha assemelhava-se a um banho de nuvens. Tão calma estive sempre em meu recolhimento que por vezes me ausentava de mim sem que o percebesse. Uma noite me vi permanecer na cama ao regressar da cozinha. Vi-me ali deitada capinando sonhos. E toquei-me, recostada à porta, a conferir qual das duas eu era. Eduardo punha a mão a escorregar sobre minha barriga. Buscava uma umidade perdida em meu sono. Com que doçura me encontrava onde eu já não lhe correspondia de todo. Como se atiçasse um enxame de carinho, separava-me as pernas e se punha a penetrar-me. Aproximei-me com tudo o que sentia dentro e perto de mim. O espelho no quarto não me refletia sob o corpo de Eduardo. Quem éramos se tornou impossível saber. Quantas fui assim nas noites em que não tive sede? Quantas de mim eu vejo agora que não me reconhecem? Onde estou, afinal? Trato de acordar Eduardo, para que me diga o que sabe.


16. SELMA ENTRE NUBES
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Desperté, la noche extendida por toda la cama. A mi lado, Eduardo al compás siempre inquieto de su sueño. Siempre dormimos desnudos. Pero su desnudez era un mar revuelto. La mía se asemejaba a un baño de nubes. Tan calma estuve siempre en mi recogimiento que a veces me ausentaba de mí sin darme cuenta. Una noche me vi permanecer en la cama al regresar de la cocina. Me vi allí acostada carpiendo sueños. Y me toqué, recostada a la puerta, para ver cuál de las dos era. Eduardo hacía resbalar una mano en mi vientre. Buscaba una humedad perdida en mi sueño. Con qué dulzura me encontraba donde ya no le correspondía del todo. Como si atizara un enjambre de cariño, me separaba las piernas y se ponía a penetrarme. Me aproximé con todo lo que sentía dentro y cerca de mí. El espejo del cuarto no me reflejaba bajo el cuerpo de Eduardo. Se volvió imposible saber quiénes éramos. ¿Cuántas fui así en las noches en que no tuve sed? ¿Cuántas de mí veo ahora que no me reconocen? ¿Dónde estoy, finalmente? Trato de despertar a Eduardo para que me diga lo que sabe.



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AS JÓIAS DO ABISMO
[ UMA NOVELA LÍRICA ]

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FLORIANO MARTINS
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1. EPÍLOGO
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Selma abria um sorriso luminoso na foto. Desses que juramos guardar por toda a vida. Selma era a mulher perfeita para durar a vida inteira. O infinito conhecia seus caprichos. Já não recordo onde encontrei a foto, porém sei que o sorriso ali permanecia. As fotos habitam sítios por vezes incompreensíveis, metem-se em lugarejos da casa que jamais habitamos. Selma era quem melhor conhecia a casa. Ríamos das vezes em que eu não a encontrava em nossos jogos. Fincava a roupa no sorriso. Bordava um labirinto no olhar. Soletrava o espinhaço do abismo em meu rosto. Selma era um delírio incomum. A casa não ia a parte alguma sem ela.
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2. TRÊS ANOS DEPOIS
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Por um instante as cenas voltaram a se repetir. Pequenos rasgos na banheira delatavam o que ainda havia na memória. Tua nudez em pedra branca já não era de todo visível, o corpo lido apenas em fragmentos. Um último beijo reteve-se em meus lábios até poucos dias. Sem lugar para ficar, aos poucos nossas lembranças vão se ausentando. O imprevisível refaz o mundo com que sonhamos. E antes que aprendamos o nome de cada coisa, volta a refazê-lo. Não importa a vontade de Deus ou que eu te ame um pouco mais. Nada se demora em seu lugar. Ainda que eu te mate. Não permanecerás comigo sequer na memória. Não há nada mais sombrio que o tempo. Os últimos recortes da banheira eram quase indescritíveis. A dor não se reconhecia. Nenhum de nós sabia o que estava ali fazendo. Fui refazendo aos poucos meu esquecimento. Já não sei quem és.
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3. ANTES QUE FOSSE ESCRITO
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O meu corpo inteiro me dizia que não ficasse em casa. Uma frase assim, apanhada como um enigma retorcendo a manhã, pode quando menos saturar o dia. Doía-me o corpo todo insistindo no assombro. Onde iria afinal, sem motivo algum para sair de casa? Tropeçava em contas do inexplicável ao sentir um risco na espinha. O gosto do sangue antecede o teatro de sua floração. Quando ouvi meus gritos, Eduardo já me havia desfigurado parte do corpo. Meu desespero duvidava que fosse eu mesma. Uma aflita palavra se repetia, sem mais influência alguma. De uma maneira ou de outra, a morte sempre nos surpreende. Que a minha se chamasse Eduardo era algo que eu simplesmente não podia entender. O que falta ao mundo nem sempre é aquilo que se supõe uma necessidade. Amei Eduardo mesmo enquanto o via rasgando-me a carne. Mesmo morta. Nem sei ao certo se o deixei de amar. Não houve tempo para isto. Desta vez, a morte é que foi surpreendida.
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4. O ILUSIONISTA
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Despeço-me da natureza humana. Confundem-se corpo e alma em seus últimos espasmos. Mesclam-se as raízes do que fomos e de todo um mundo impossível. Quando me tocas já não estou. Em um vislumbre, escapas de meu ser. Um jorro de abismos se expõe em minha nudez. Tenho a pele supliciada. Uma ribanceira de êxtase ampliada em sítios ermos. Para que me cobices onde nem mesmo a memória alcance. E para que argumentes que eu te moldei como uma vítima secreta. Agora já sabes como pude mover-me de um extremo a outro de tua ilusão. A paisagem pressentida sempre esteve ali, como uma visão despida de toda crença.
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5. O ELEMENTO SURPRESA
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O tempo tropeça em sua própria rotina. Eduardo refaz o percurso de suas sombras. Em vão, tenta regressar ao que um dia imaginou ser. A cada nova página de seus anseios repete-se unicamente o corpo sem vida de Selma. Pensa em roubá-lo de sua memória. Afundá-lo em um lago que em seguida esconderia de si mesmo. Na medida em que busca uma solução para livrar-se daquele cadáver seus planos vão sendo escritos na pele feminina. O corpo se enche de frases que são como um livro secreto de últimos recursos. Receituário de truques espantosos que ressoam como um fosso de incriminações. Um rio suspenso que atormenta-lhe os passos. A dor multiplicada e amontoada como a ruína do que não soube evitar. Eduardo avança as páginas do tempo implorando por um naco de instabilidade. Um elemento surpresa. Uma chuva que chegasse a confundir as evidências. Contudo, não chove. Selma está irremediavelmente morta. E seu corpo agora é o que Eduardo mais teme.
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6. DEVOÇÃO
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Teu corpo é feito de lábios. Onde quer que eu te beije, renasço. Um secreto plantio de cores, penugens, revoadas através das estações. Acalanto de senhas, dos pés à nuca. O que sei de ti é o que encontro a cada caminhada por teu corpo. À noite admiro teus limites, como me preenchem. Adormeço entre luzes flutuantes, renomeando os arcanos do fogo em tua pele. Assim te amo. O dia aprende a ler as migrações de teu desejo. Estranhas formas que mudam de olhar enquanto as alimentas. Eu sei como te fazes assim. Como pousas no horizonte de meu ser, com tudo o que vai ficando pelo caminho. Sem que me chames. Tudo em mim sabe onde te encontrar. Meus lábios são a fábula de teu corpo.
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7. NUNCA ESTIVE PRONTO
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A dor não atende por seu nome. Procurei por tua sombra pela casa inteira. O corpo ali estático envolto em um novo dilema. Pasto de horas movediças. Debato-me por entre cômodos, reviro utensílios, arranco o assoalho. Não há traços de tua sombra. A tua morte foi um mal pressentimento. Encaro meus erros todos reunidos à volta de teu corpo. Pressiona-me a desconfiança de que a sombra permanecerá oculta. Desfaço-te de roupas, hábitos, lembranças. Desprendo a mobília do olhar. Emudeço lâmpadas, torneiras, janelas. Ponho a casa toda a procurar por ela. Assusta-me não saber onde encontrá-la. Desespero a mudar os nomes da aflição. Esqueço o meu próprio nome e mesmo assim não te mostras. Não te vejo mais onde estás. Tento não respirar para amenizar a dor, porém a respiração não se desprende de mim, latejante como um castigo. Dói-me infinitamente o silêncio mortificante de tua sombra ausente. Não importa o que eu tenha aprendido. A dor não me atende mais por nome algum.
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8. ALGUNS MINUTOS ANTES
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O que vamos subtraindo ao tempo é nosso pânico ante a confidência. O medo de estar certo. Quando te insinuas e frequentas meu desejo, desmascaro a vigília e elimino suas pistas. Não me escutes. Não devemos estar aqui. O simples roçar de teus mamilos em meus lábios e o sítio nos parece outro. Lâminas atiradas de imagens que nos querem cada uma à sua maneira. O suor silabeando quimeras. A saliva espreitando novos mistérios. Meu corpo se inscreve no teu, com suas ranhuras, iscas, astúcias. Um pátio de enredos, desfrute de harmonias, tuas saliências escandalosas. Memória desforrada por toda omissão. Não me toques outra vez este fio incontido. Esvazia teu ser como uma ferida transitiva, o abismo interino de teu gozo. Não me retenhas. Se te falta uma sílaba o espírito desfalece. Transpira sem queixas. Já não sei qual de nós tem a última palavra. Abre um novo erro em mim.
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9. AS SOBRAS DO VAZIO
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A casa se agita entre o esgoto e a chaminé. Constrangida por dois enigmas a tarde se retorce, quase em desmaio. Eduardo não encontra mais o nome de Selma e passa a chamá-la por uma palavra que se esquece sempre que pronunciada. O relógio não perde as horas. A chuva não cai lá fora. A louça na cozinha não vai ao chão. Nenhum ruído fora de lugar. Não chama atenção alguma o vulto sentado na poltrona da sala. Observa sem malícia a palidez de Eduardo. Sem que o perceba, vaga pela casa transpirando inquietude, como se procurasse a própria imagem consumida. Ao entrar na sala, confunde-a com o vulto imóvel. Imagina-se o outro sem saber mais de si. Ilude-se ante o fantasma de sua perda. Em vão apela para alguma destreza oculta, um artifício que lhe devolva os ossos do tempo, a máscara, um indulto que o faça suportar a memória. A ausência de espelhos no cômodo o desperta de sua demência. E junta-se a ela um argumento insepulto, o som legítimo e implacável que vem da cozinha, a faca com que mortificara Selma mergulhando da mesa ao chão. Aturtido pelo estrondo daquele utensílio da dor, Eduardo finalmente compreende que jamais estará só.
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10. ESBOÇOS DE CENA
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Estivemos discutindo por alguns instantes, uma tensão injustificável se apoderava de nós. De um momento para outro, sem que me contivesse, lhe arremessei uma caneca, ele abaixou-se, enquanto gritava meu nome: Selma, Selma. Despertei como se de um transe, porém não ao ouvi-lo e sim graças ao som da caneca se partindo. Era uma caneca pesada, de louça, que me havia sido dada por uma amiga que a trouxera do Equador. O que me pareceu um absurdo é que no dia seguinte eu a encontrei na cristaleira, intacta, como se nada lhe tivesse ocorrido. Como poderia ter se quebrado e agora estar ali, novamente inteira? Naquela mesma noite, quando estávamos no quarto, nos preparávamos para dormir, ouvimos um estranho ruído vindo da cozinha, um estrondo que se repetia e nos dava a impressão de que toda a cozinha vinha abaixo, como se toda a louça estivesse se partindo. Corremos para lá, juntos. Quando chegamos já não havia um único som e toda a cozinha estava tomada por intrigante ordem. O que teria ocorrido ali? Quantos somos, afinal, sem que o percebamos?
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11. VERSÃO EM SILÊNCIO
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O rosto de Selma como o de uma esfinge alheia ao próprio enigma. Na medida em que suprimo sua vida, esvoaça à minha frente de maneira violenta. O sangue golpeia sua escrita delirante por toda a carne. Certas anotações são como truques, ilegíveis para mim. Quando a ponho na banheira as pernas como que se multiplicam em convulsão. Em meio à agitação de seus verbos sanguíneos, eu a desembaraço do vestido aberto rasgado aflito como a pele cortada em apelos instáveis. O metal da faca vibra sua melodia impassível. É o único som que se escuta. Selma esbraveja silêncio a cada incisão. Seu corpo transborda espanto, porém o rosto preserva uma pavorosa ausência. Busco acertá-lo com a lâmina. Não alcanço um rasgo sequer no olhar despido de qualquer reação. Nem mesmo o sangue lhe atinge. O rosto de Selma impede que eu complete meu testemunho de sua morte. Em sua loucura posta a prova, o rosto não morre. Como um agravo, não morre. Eu não posso mata-la mais do que isto.
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12. A EFÍGIE SUSPEITA

A memória do ocorrido parecia tão desfeita quanto o corpo de Selma. A casa ausentava-se do bairro, imersa em um matagal fechado. A noite revirando o interior do lugar. Ninguém esperava que Deus entrasse ali sozinho. Eduardo afagando os retalhos do corpo da amada. Alheio ao horror que ele próprio lapidara, fita o vazio como se pousasse alguma recordação feliz. Parecia quase sorrir em certo momento. E amparado em um semblante pueril tocava a intimidade dos restos de Selma. Queria ouvi-la gemendo e pedindo que não parasse. Sua mão, no entanto, retornava descontente daquele púbis marcado a sangue. Eduardo soluçava desamparado. A casa se abrindo a seus olhos como uma transparência frondosa. O mundo visível de sua danação. Da banheira podia distinguir o vulto que permanecia na poltrona, como se esperasse a hora de entrar em cena. Onde estaria a voz de Selma? Quem a teria levado para longe dela? Eduardo voltou a fitar o vazio, acariciando um mamilo quase de todo despregado do seio daquele corpo imóvel.
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13. UMA EPÍGRAFE
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Se eu vejo alguém matar outra pessoa, e matá-la de verdade, é um gesto terrível, dramático, mas que está isolado em seu próprio horror. Ao contrário, sabemos muito bem que a arte deve ser exemplar, como uma coisa que será a significação de outra.
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Eugène Ionesco (Diálogos com Claude Bonnefoy, 1970)
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14. NA SEMANA PASSADA
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Colávamos apelidos um no riso do outro. Corríamos pela casa buscando nomes distintos, termos engraçados, alguns de puro espalhafato. Eu o chamava de todas as tolices que pousavam em minha mente. Ele imitava minha voz, repetindo-me com entusiasmo. Infinitos batismos depois o meu cansaço me fazia sentar. Eduardo cheirava-me o regaço com um regozijo infantil. Punha-me uma escala acima na desordem de sua língua. Eu não escolhia os gritos, em seu deleite agudo. Tudo em nós era automático, com sua mina explosiva de mistérios. Mesmo quando me abria com exagero, curioso como se diante de um espelho, buscando algo de si em meu íntimo. Eu lhe pedia que evitasse a dor. Ele dizia conhecer o caminho. Desabotoava-me toda resistência. Por vezes guardava seus dedos em mim e mudava de excessos. Doía-me em tais casos. Eduardo arranhava meus gemidos. Em seu olhar incontido parecia não haver ninguém. Eu o queria de volta, antes que a dor se alastrasse. Deixei escapar seu nome com algumas lágrimas e vi, em seguida, como retornava ao olhar e às carícias insuspeitas. E voltava a improvisar apelidos em meu rosto. Nada em Eduardo fazia sentido prolongadamente.
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15. CONVERSA COM O AUTOR
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Os móveis perambulavam pela casa. Alguns utensílios vasculhavam a memória de quinas, gavetas, esgotos. Cada movimento sugeria vínculos estreitos com a cena funesta. Como se a casa disfarçasse alguma conivência com o crime. Algo que antecipara o desatino de Eduardo. Algo que drenara a memória ao ponto de não haver resquício algum de motivos. Um bocado de gestos já quase de todo desfigurados. Selma reagira àqueles ataques com algum desalento. Como se a morte fosse parte de seu conflito. Morrer nas mãos de Eduardo, sem maior tumulto. Flutuar com ele em direção ao núcleo de sua alienação. Porém algo destoava na mecânica daquele plano. A casa parecia ocultar uma suspeita hesitação. A falsa opinião dos talheres, um desacerto na mobília, a doutrina gasta do encanamento. A súbita aparição de um princípio fora de lugar. A casa a sangrar como quem perde a noção de si mesmo. Selma e Eduardo como espectros assimilados por esse itinerário de destroços. A casa empalidecida ante o roteiro extraviado. Uma nódoa no suprimento de sinais. Em definitivo, algo dera errado.
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16. SELMA ENTRE NUVENS
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Despertei, a noite estendida por toda a cama. A meu lado, Eduardo no compasso sempre inquieto de seu sono. Sempre dormimos nus. Porém sua nudez era um mar revolto. A minha assemelhava-se a um banho de nuvens. Tão calma estive sempre em meu recolhimento que por vezes me ausentava de mim sem que o percebesse. Uma noite me vi permanecer na cama ao regressar da cozinha. Vi-me ali deitada capinando sonhos. E toquei-me, recostada à porta, a conferir qual das duas eu era. Eduardo punha a mão a escorregar sobre minha barriga. Buscava uma umidade perdida em meu sono. Com que doçura me encontrava onde eu já não lhe correspondia de todo. Como se atiçasse um enxame de carinho, separava-me as pernas e se punha a penetrar-me. Aproximei-me com tudo o que sentia dentro e perto de mim. O espelho no quarto não me refletia sob o corpo de Eduardo. Quem éramos se tornou impossível saber. Quantas fui assim nas noites em que não tive sede? Quantas de mim eu vejo agora que não me reconhecem? Onde estou, afinal? Trato de acordar Eduardo, para que me diga o que sabe.
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textos e imagens floriano martins 2009
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LAS JOYAS DEL ABISMO
[ UNA NOVELA LÍRICA ]

FLORIANO MARTINS

traducción de Marta Spagnuolo


1. EPÍLOGO

Selma abría una sonrisa luminosa en la foto. De esas que juramos guardar por toda a vida. Selma era la mujer perfecta para durar la vida entera. El infinito conocía sus caprichos. Ya no recuerdo dónde encontré la foto, pero sé que la sonrisa estaba allí. Las fotos habitan sitios a veces incomprensibles, se meten en lugarejos de la casa que jamás habitamos. Selma era quien mejor conocía la casa. Nos reíamos de las veces que yo no la encontraba en nuestros juegos. Hincaba la ropa en la sonrisa. Bordaba un laberinto en la mirada. Deletreaba el espinazo del abismo en mi rostro. Selma era un delirio poco común. La casa no iba a ninguna parte sin ella.

2. TRES AÑOS DESPUÉS

Por un instante, las escenas volvieron a repetirse. Pequeñas rayas en la bañera delataban lo que aún había en la memoria. Tu desnudez de piedra blanca ya no era del todo visible, el cuerpo leído apenas en fragmentos. Un último beso se detuvo en mis labios por unos pocos días. Sin lugar para quedarse, poco a poco nuestros recuerdos se van yendo. Lo imprevisible rehace el mundo con el que soñamos. Y antes que aprendamos el nombre de cada cosa, vuelta a rehacerlo. No importa la voluntad de Dios ni que yo te ame un poco más. Nada permanece en su lugar. Aunque te mate. No permanecerás conmigo ni siquiera en la memoria. No hay nada más sombrío que el tiempo. Los últimos cortes de la bañera eran casi indescriptibles. El dolor no se reconocía. Ninguno de nosotros sabía qué estaba haciendo allí. Fui rehaciendo poco a poco mi olvido. Ya no sé quién eres.

2. ANTES QUE SE ESCRIBIERA

Mi cuerpo entero me decía que no me quedara en casa. Una frase así, atrapada como un enigma que retuerce la mañana, puede cuando menos saturar el día. Me dolía todo el cuerpo insistiendo en el terror. Al fin de cuentas, ¿dónde iría sin ningún motivo para salir de casa? Tropezaba en cuentas de lo inexplicable cuando sentí un tajo en la espalda. El gusto de la sangre antecede el teatro de su floración. Cuando oí mis gritos, Eduardo ya me había desfigurado parte del cuerpo. Mi desesperación dudaba de que fuese yo misma. Una afligida palabra se repetía, ya sin ninguna influencia. Que la mía se llamara Eduardo era algo que yo simplemente no podía entender. Lo que le falta al mundo no siempre es aquello que se supone una necesidad. Amé a Eduardo hasta mientras lo veía rasgándome la carne. Incluso muerta. No sé realmente si lo dejé de amar. No hubo tiempo para eso. Esta vez, la sorprendida fue la muerte.

4. EL ILUSIONISTA

Me despido de la naturaleza humana. Cuerpo y alma se confunden en sus últimos espasmos. Se mezclan las raíces de lo que fuimos y de todo un mundo imposible. Cuando me tocas ya no estoy. En un vislumbre, escapas de mi ser. Un chorro de abismos se expone en mi desnudez. Tengo la piel supliciada. Una barranca de éxtasis dilatada en sitios yermos. Para que me codicies incluso donde la memoria no alcanza. Y para que argumentes que yo te moldeé como a una víctima secreta. Ahora ya sabes cómo pude moverme de un extremo a otro de tu ilusión. El paisaje presentido siempre estuvo allí, como una visión despojada de toda creencia.

5. EL ELEMENTO SORPRESA

El tiempo tropieza en su propia rutina. Eduardo rehace el recorrido de sus sombras. En vano intenta regresar a lo que un día imaginó ser. Con cada nueva página de sus ansias se repite únicamente el cuerpo sin vida de Selma. Piensa en robarlo de su memoria. Hundirlo en un lago que en seguida escondería de sí mismo. A medida que busca una solución para librarse de aquel cadáver, sus planes van siendo escritos en la piel femenina. El cuerpo se llena de frases que son como un libro secreto de últimos recursos. Recetario de trucos espantosos que resuenan como un foso de incriminaciones. Un río interrumpido que le atormenta los pasos. El dolor multiplicado y amontonado como la ruina de lo que no supo evitar. Eduardo pasa las páginas del tiempo implorando por un trozo de inestabilidad. Un elemento sorpresa. Una lluvia que llegara a confundir las evidencias. Sin embargo, no llueve. Selma está irremediablemente muerta. Y su cuerpo es ahora lo que Eduardo más teme.

6. DEVOCIÓN

Tu cuerpo está hecho de labios. Dondequiera te beso, renazco. Un secreto plantío de colores, pelusas, bandadas a través de las estaciones. Canción de cuna de señas, de los pies a la nuca. Lo que sé de ti es lo que encuentro en cada travesía por tu cuerpo. De noche admiro tus límites, cómo me llenan. Me adormezco entre luces fluctuantes, renombrando los arcanos del fuego en tu piel. Así te amo. El día aprende a leer las migraciones de tu deseo. Extrañas formas que cambian de mirada mientras las alimentas. Yo sé cómo te haces así. Cómo te posas en el horizonte de mi ser, con todo lo que va quedando por el camino. Sin que me llames. Todo en mí sabe dónde encontrarte. Mis labios son la fábula de tu cuerpo.

7. NUNCA ESTUVE LISTO

El dolor no atiende a su nombre. Busqué tu sombra por la casa entera. El cuerpo allí estático envuelto en un nuevo dilema. Pasto de horas movedizas. Me debato por entre cuartos, revuelvo utensilios, arranco la madera del piso. No hay rastros de tu sombra. Tu muerte fue un mal presentimiento. Enfrento mis errores todos reunidos alrededor de tu cuerpo. Me presiona la desconfianza de que la sombra permanezca oculta. Te deshago de ropas, hábitos, recuerdos. Desprendo el mobiliario de la mirada. Enmudezco lámparas, grifos, ventanas. Pongo toda la casa a buscarla. Me asusta no saber dónde encontrarla. Me desespero cambiando los nombres de la aflicción. Olvido mi propio nombre y ni así te muestras. Ya no veo dónde estás. Intento no respirar para mitigar el dolor, pero la respiración no se desprende de mí, palpitante como un castigo. Me duele infinitamente el silencio mortificante de tu sombra ausente. No importa lo que haya aprendido. El dolor ya no me atiende por ningún nombre.

8. ALGUNOS MINUTOS ANTES

Lo que vamos sustrayendo al tiempo es nuestro pánico ante la confidencia. El miedo de tener razón. Cuando te insinúas y frecuentas mi deseo, desenmascaro la vigilia y elimino sus pistas. No me escuches. No debemos estar aquí. El simple roce de tus pezones en mis labios y el sitio nos parece otro. Láminas sacadas de imágenes que nos quieren cada una a su manera. El sudor silabeando quimeras. La saliva acechando nuevos misterios. Mi cuerpo se inscribe en el tuyo, con sus ranuras, anzuelos, astucias. Un patio de enredos, disfrute de armonías, tus salientes escandalosas. Memoria vengada por toda omisión. No me toques otra vez este hilo incontenible. Vacía tu ser como una herida transitiva, el abismo interino de tu gozo. No me retengas. Si te falta una sílaba el espíritu desfallece. Transpira sin quejas. Ya no sé cuál de nosotros tiene la última palabra. Ábreme un nuevo error.

9. LAS SOBRAS DEL VACÍO

La casa se agita entre la cloaca y la chimenea. Constreñida por dos enigmas la tarde se retuerce, casi desmayándose. Eduardo ya no encuentra el nombre de Selma y empieza a llamarla por una palabra que se olvida siempre al ser pronunciada. El reloj no pierde las horas. La lluvia no cae allá afuera. La loza en la cocina no cae al piso. Ningún ruido fuera de lugar. No llama ninguna atención el bulto sentado en el sillón de la sala. Observa sin malicia la palidez de Eduardo. Este, sin percibirlo, vaga por la casa transpirando inquietud, como si buscara la propia imagen consumida. Al entrar en la sala, la confunde con el bulto inmóvil. Se imagina el otro ya sin saber más de sí mismo. Se engaña ante el fantasma de su pérdida. En vano apela a alguna destreza oculta, un artificio que le devuelva los huesos del tiempo, la máscara, un indulto que lo haga soportar la memoria. Lo despierta de su demencia la ausencia de espejos en el cuarto. Y a ella se une un argumento insepulto, el sonido legítimo e implacable que viene de la cocina, el cuchillo con el que torturó a Selma que se zambulle desde la mesa en el suelo. Aturdido por el estruendo de aquel utensilio del dolor, Eduardo finalmente comprende que jamás estará solo.

10. ESBOZOS DE ESCENA

Estuvimos discutiendo un rato, una tensión injustificable se apoderaba de nosotros. De un momento a otro, sin poder contenerme, le tiré una jarrita, él se agachó, mientras gritaba mi nombre: Selma, Selma. Desperté como de un trance, pero no al oírlo sino gracias al ruido de la jarrita al partirse. Era una jarrita pesada, de loza, que me había regalado una amiga que la trajo de Ecuador. Lo que me pareció absurdo fue que al día siguiente la encontré en el aparador, intacta, como si nada hubiera ocurrido. ¿Cómo podía haberse roto y ahora estar allí, nuevamente entera? Aquella misma noche, cuando estábamos en el dormitorio preparándonos para dormir, oímos un extraño ruido que venía de la cocina, un estruendo que se repetía y nos daba la impresión de que la cocina entera se venía abajo, como si toda la loza se estuviera rompiendo. Corrimos hacia allá, juntos. Cuando llegamos ya no se oía un solo ruido y toda la cocina estaba poseída de un orden intrigante. ¿Qué habría ocurrido allí? ¿Cuántos somos, al fin de cuentas, sin que lo percibamos?

11. VERSIÓN EN SILENCIO

El rostro de Selma como el de una esfinge ajena al propio enigma. A medida que suprimo su vida, revolotea frente a mí de manera violenta. La sangre golpea su escritura delirante por toda la carne. Ciertas anotaciones son como trucos, ilegibles para mí. Cuando la pongo en la bañera las piernas parecen multiplicarse en convulsiones. En medio de la agitación de sus verbos sanguíneos, la desembarazo del vestido abierto rasgado afligido como la piel cortada en llamados inestables. El metal del cuchillo vibra su melodía impasible. Es el único sonido que se escucha. Selma brama silencio con cada incisión. Su cuerpo desborda espanto, pero su rostro conserva una pavorosa ausencia. Busco darle con la hoja. No llego a tajear ni siquiera la mirada desprovista de toda reacción. Ni la sangre la alcanza. El rostro de Selma me impide completar mi testimonio de su muerte. En su locura puesta a prueba, el rostro no muere. Como un agravio, no muere. No puedo matarla más que esto.
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12. LA EFIGIE SOSPECHOSA

La memoria de lo ocurrido parecía tan deshecha como el cuerpo de Selma. La casa se ausentaba del barrio, inmersa en un matorral cerrado. La noche revolviendo el interior del lugar. Nadie esperaba que Dios entrara allí solo. Eduardo acariciando los retazos del cuerpo de la amada. Ajeno al horror que él mismo labró, mira fijamente el vacío como si en él se hubiera posado un recuerdo feliz. Parecía casi sonreír en cierto momento. Y amparado en un semblante pueril tocaba la intimidad de los restos de Selma. Quería oírla gimiendo y pidiéndole que no se detuviese. Su mano, sin embargo, regresaba descontenta de aquel pubis marcado a sangre. Eduardo sollozaba desamparado. La casa abriéndose ante sus ojos como una transparencia frondosa. El mundo visible de su daño. Desde la bañera podía distinguir el bulto que permanecía en el sillón como esperando la hora de entrar en escena. ¿Dónde estaría la voz de Selma? ¿Quién la habría llevado lejos de ella? Eduardo volvió a mirar con fijeza el vacío, acariciando un pezón casi del todo arrancado del seno de aquel cuerpo inmóvil.
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13. UN EPÍGRAFE
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Si veo que alguien mata a otra persona, y que la mata de verdad, es un gesto terrible, dramático, pero que está aislado en su propio horror. En cambio, sabemos muy bien que el arte debe ser ejemplar, como una cosa que será el significado de otra.
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Eugène Ionesco (Diálogos con Claude Bonnefoy, 1970)
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14. LA SEMANA PASADA
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Pegábamos apodos uno en la risa del otro. Corríamos por la casa buscando nombres distintos, términos graciosos, algunos de pura extravagancia. Yo lo llamaba todas las tonterías que se posaban en mi mente. Él imitaba mi voz, repitiéndome con entusiasmo. Infinitos bautismos después mi cansancio me hacía sentar. Eduardo me olía el regazo con un regocijo infantil. Me ponía una escala arriba en el desorden de su lengua. Yo no elegía los gritos, en su deleite agudo. Todo en nosotros era automático, con su mina explosiva de misterios. Incluso cuando me abría con exageración, curioso como ante un espejo, buscando algo de sí en mi intimidad. Yo le pedía que evitara el dolor. Él decía conocer el camino. Me desabotonaba toda resistencia. A veces guardaba sus dedos en mí y cambiaba de excesos. En esos casos me dolía. Eduardo arañaba mis gemidos. En su mirada incontenible parecía no haber nadie. Yo lo quería de regreso, antes que el dolor se extendiera. Dejé escapar su nombre con algunas lágrimas y vi, en seguida, cómo retornaba a la mirada y a las caricias insospechadas. Y volvía a improvisar apodos en mi rostro. Nada en Eduardo tenía sentido prolongadamente.
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15. DIÁLOGO CON EL AUTOR
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Los muebles deambulaban por la casa. Algunos utensilios escudriñaban la memoria de aristas, cajones, cloacas. Cada movimiento sugería vínculos estrechos con la escena funesta. Como si la casa disimulara alguna connivencia con el crimen. Algo que anticipó el desatino de Eduardo. Algo que drenó la memoria al punto de no haber resquicio alguno de móviles. Una porción de gestos ya casi del todo desfigurados. Selma se resistió a aquellos ataques con algún desaliento. Como si la muerte fuera parte de su conflicto. Morir a manos de Eduardo, sin mayor alboroto. Fluctuar con él en dirección al núcleo de su alienación. Sin embargo algo desentonaba en la mecánica de aquel plan. La casa parecía ocultar una sospechosa hesitación. La falsa opinión de los cubiertos, un desacierto en el mobiliario, la falsa doctrina de la cañería. La súbita aparición de un principio fuera de lugar. La casa sangrando como quien pierde la noción de sí mismo. Selma y Eduardo como espectros asimilados por ese itinerario de destrozos. La casa empalidecida ante la guía extraviada. Una mancha en la dotación de señales. En definitiva, algo salió mal.
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16. SELMA ENTRE NUBES
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Desperté, la noche extendida por toda la cama. A mi lado, Eduardo al compás siempre inquieto de su sueño. Siempre dormimos desnudos. Pero su desnudez era un mar revuelto. La mía se asemejaba a un baño de nubes. Tan calma estuve siempre en mi recogimiento que a veces me ausentaba de mí sin darme cuenta. Una noche me vi permanecer en la cama al regresar de la cocina. Me vi allí acostada carpiendo sueños. Y me toqué, recostada a la puerta, para ver cuál de las dos era. Eduardo hacía resbalar una mano en mi vientre. Buscaba una humedad perdida en mi sueño. Con qué dulzura me encontraba donde ya no le correspondía del todo. Como si atizara un enjambre de cariño, me separaba las piernas y se ponía a penetrarme. Me aproximé con todo lo que sentía dentro y cerca de mí. El espejo del cuarto no me reflejaba bajo el cuerpo de Eduardo. Se volvió imposible saber quiénes éramos. ¿Cuántas fui así en las noches en que no tuve sed? ¿Cuántas de mí veo ahora que no me reconocen? ¿Dónde estoy, finalmente? Trato de despertar a Eduardo para que me diga lo que sabe.
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As jóias do abismo
Imagens: Floriano Martins Trilha: Francisco Casaverde